Redação

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AMANHÃ TEM ENEM (EXAME NACIONAL DE ENSINO MÉDIO) | Dias 05 e 12 de novembro tem ENEM no BRASIL

Opinião do professor MARCO AURÉLIO

Amanhã tem prova do ENEM. São 6,7 milhões de candidatos em 1725 cidades pelo Brasil. Em São Paulo são mais de um milhão de concorrentes. Teremos dois dias de provas: dia 05 e 12 de novembro. O horário delas é pontualmente às 13h30min, os locais das provas abrem ao meio dia (12:00) e fecham às 13:00, pelo horário de Brasília. Por isso, chegue cedo para não virar notícia ruim, daquelas que mostram candidatos desesperados por encontrarem os portões de entrada fechados.

Como temos fuso horário e horário de verão no Brasil, em algumas regiões o fechamento dos locais das provas pode ser mais cedo. No Acre, por exemplo, o fechamento ocorre às 10:00; no Amazonas, Rondônia e Roraima às 11:00; já no nordeste, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Amapá às 12:00. Do Rio Grande do Sul, passando por São Paulo, Rio, Minas, Goiás e Brasília às 13:00.  O ENEM foi organizado nacionalmente pelo ex-Ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e hoje é considerado o terceiro maior exame de vestibular do mundo.

Algumas dicas para você, que vai fazer o exame domingo:

  1. Procure relaxar, comer e dormir bem hoje.
  2. Leia a prova com calma
  3. Responda, primeiro, as questões mais fáceis
  4. Controle o seu tempo. Não esqueça, são 5 horas e meia de prova.
  5. Você tem uma hora para a redação. O normal é deixa-la para o final. Se você achar que o tema é muito tranquilo, pode fazer no meio da prova. Mas, não esqueça, controle bem o seu tempo de prova. O ideal é fazer a redação ao final.
  6. Na redação faça uma introdução, desenvolva o tema e produza uma conclusão. Nunca escreva: 'na minha opinião' ou gírias.
  7. Por fim, algumas possibilidades de temas para redação. No ano passado foi Intolerância Religiosa. Esse ano há quem aposte em Corrupção, Homofobia, Educação ou Saúde.
  8. Esqueça a polêmica jurídica que ocorre no Supremo. Faça seu ENEM e muito boa prova.

 

Marco Aurélio Rodrigues Freitas é jornalista, historiador, biomédico e professor das redes municipal de estadual de São Paulo. Escreve todas as semanas no site Planeta Osasco. 

Nós passamos quatro anos estudando apenas aquilo. Fizemos leituras teóricas acompanhados de um bom dicionário ou de lenços de papel. Durante esse período, nossos finais de semana foram reduzidos a fichamentos e análises contextualizadas, que nos renderam dores no pulso e enxaquecas. Participamos de pesquisas e escrevemos artigos apresentando os resultados alcançados. Esquentamos marmita no refeitório, pegamos metrôs e ônibus lotados, perdemos a carteirinha, esquecemos de devolver aquele livro para a biblioteca. Planejamos aulas e aplicamos com os nossos colegas ou alunos que integraram o nosso estágio.

A cada semestre, avaliações cobravam teorias que demorávamos a fixar, ou no meu caso, apreender. A cada semestre, ficávamos mais ansiosos para concluir e mais temerosos pelo trabalho de conclusão de curso e o mercado de trabalho. Diversas vezes pensamos em desistir. Uma vez por dia, para ser mais exata. Contudo, o amor pela profissão e pelo aprendizado adquirido naquele ambiente, mantém nossos pés firmes na sala de aula, nosso caminho de todos os dias para a universidade. 

Tudo isso passamos em quatro anos.  Todos os anseios, inseguranças, frustrações, mas também toda a satisfação, a realização de um sonho e o aprendizado. Aliás, as vidas profissionais e pessoais se entrelaçam nesse período. Não sabemos mais administrar as amizades com a mesma aptidão da adolescência. E assim, alguns amigos vão ficando pelo caminho, permanecendo apenas a lembrança dos momentos bons que foram vividos. 

Essa trajetória me enche de orgulho, mas também me espanta. Quando paro para refletir que tenho apenas vinte e três anos e que já sou graduada, sinto um peso enorme em meus ombros. Parece que foi ontem que me formei, que estava estudando Vygotsky, Saussure, Skinner, Bosi, Cunha, Koch, Bagno. Linguística 1, 2, Literatura Portuguesa, Brasileira. Literaturas de língua inglesa. Parece que foi ontem que ouvi pela primeira vez o termo “preconceito linguístico” e que me senti como Drummond – enquanto a professora falava sobre variações, ela desmatava a Amazonas de minha ignorância. 

 

Perco a noção da hora quando penso em tudo isso.

Perco a noção da hora quando penso em tudo isso. E em meus devaneios, quando olho para onde estou agora, concluo que a faculdade me ensinou muito, mas não me ensinou tudo. A faculdade me ensinou a corrigir uama produção textual, priorizando sempre os aspectos relacionas à coesão e à coerência, mas não me ensinou a entregar a redação corrigida repleta de anotações, para aquele aluno que se sente inseguro ao escrever.

A faculdade me ensinou a preparar uma aula, pensando em metodologias, contexto sociocultural do aluno, além dos exercícios de fixação se o assunto for morfossintaxe, mas não me ensinou a ter jogo de cintura quando as coisas não saem conforme o planejado. A faculdade me ensinou a analisar uma obra literária, partindo sempre do contexto sócio-histórico-cultural em questão, enfatizando que estudar literatura é também estudar o Homem e sua relação com o mundo, mas não me ensinou a superar a resistência dos alunos quando pedimos que eles leiam Machado, Guimarães, Eça. 

 

Essas vivências somente são adquiridas quando saímos da faculdade, quando enfrentamos a realidade das escolas, da Educação de nosso país, mas principalmente, quando entendemos que trabalhamos diariamente com formação de pessoas. Outra expressão que me assusta. Como posso formar alguém? O que devo fazer quando um aluno se revolta por conta da nota? O que devo fazer quando um aluno virar a cara para mim, porque não arredondei sua média? Como me portar em situações como essas, como mostrar ao meu aluno que quero contribuir com a sua formação e não deixá-lo inseguro, como eu fui um dia? Como posso explicar que não estou contra ele, mas que quero caminhar do lado dele, oferecendo o que há de melhor em mim? 

 

Todas as perguntas convivem diariamente comigo. Elas me acompanham na escola, me visitam quando deito em minha cama, me assustam quando passo por situações que ainda não vivenciei. Algum dia, tudo isso será experiência e poderei acalmar colegas recém-formados em licenciatura, caso isso aconteça com eles. Por enquanto, sigo aprendendo todos os dias o que a faculdade não me ensinou.

 

ANA POLO, professora de Português no COC de Osasco, recém-formada. Atuou como correspondente em Vancouver no Canadá, para o Planeta Osasco no início do ano de 2017. 

IMG publicada no site http://www.annavlis.com.br/2017/06/ Autor da foto desconhecido.

Nota – O governo de Osasco anunciou no começo do ano um sistema de monitoramento por câmeras e uma central modernizada que deveria aumentar a segurança (como identificar placas e avisar a polícia em caso de carros roubados).

O Prefeito Rogério Lins descreveu como ‘O sistema de monitoramento mais moderno do Brasil”. Talvez fosse há 10 anos. Entenda;

O monitoramento por câmeras em Osasco foi iniciado em 2008, focado em auxiliar desde o fluxo de automóveis até a identificação e envio de ambulâncias em caso de acidentes. E sempre funcionou desse modo.

Na prática, o ‘upgrade’ real que Lins anunciou ficaria apenas por conta da integração com o Detecta (serviço do Governo do Estado de São Paulo para identificação de placas de carros roubados) acompanhado da instalação de mais câmeras. Com a boa relação entre Lins e Alckmin, isso parecia algo rápido e fácil de ser feito.

Meses após o anúncio, o sistema funciona exatamente como quando inaugurado em 2008.

 

CMIO – COLETIVO DE MÍDIA INDEPENDENTE DE OSASCO  

O ódio coletivo é sintoma de uma sociedade doente. Por Prof. Heraldo Tovani

Os indivíduos e a sociedade são partes indivisíveis de um mesmo todo e a doença, desvio ou moléstia de um se manifesta como sintoma no outro. Analisar a sociedade sem os seus indivíduos é um erro tão grande como olhar os indivíduos separados de suas respectivas sociedades.

A Sociologia e a História podem nos falar desses sintomas nas sociedades; a Psicanálise nos fala sobre os sintomas no indivíduo.

A sociedade, composta por indivíduos, determina como tais indivíduos vivem, trabalham, pensam, sentem, amam ou odeiam e, por outro lado, simultaneamente sofre a ação destes indivíduos. Em outros termos, a sociedade faz o indivíduo que faz a sociedade.

O ódio é um sentimento individual mas, quando compartilhado em larga escala, torna-se um fenômeno social. É o sintoma, no indivíduo ou no grupo, da doença da sociedade.

Entretanto, esse ódio só pode se tornar amplamente compartilhado se houverem indivíduos predispostos a alimentá-lo; e tal ódio só se multiplica se houver na sociedade fatores históricos e sociais que a predisponham a ele.

O ódio dos indivíduos já foi amplamente estudado pela Psicanálise. Destacam-se os estudos de Sigmund Freud e de Jacques Lacan.

O ensino clássico de Freud nos mostra que a busca pelo prazer (o princípio do prazer) é o combustível de nossas formulações mentais. É na busca erótica pelo prazer que nossa energia libidinal nos molda nesta ou naquela forma de ser. É por ela que nos inventamos a nós mesmos.

É, como explica Lacan, "essa relação erótica, em que o indivíduo humano se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo, eis aí a energia e a forma donde se origina a organização passional que ele irá chamar de seu eu" (A Agressividade em Psicanálise -1948- pg. 116).

Os sintomas psicológicos ou psicóticos são deslocamentos dessa energia libidinal. Nossa energia libidinal, que havia se fixado em determinado ponto de nosso aparelho psíquico e lá gozava do prazer de sua realização, por algum trauma viu-se obrigada a se deslocar. É o que pode acontecer, por exemplo, quando de um evento traumático como um rompimento amoroso, uma morte súbita, um acidente ou até, por vezes, por um fato menos intenso, mas que desperta um questionamento de nossas certezas já construídas, como uma notícia do jornal, uma nota baixa em uma prova ou um simples sonho desestabilizador.

Nesse momento de desestabilização, nossas energias libidinais buscam uma nova fixação. Buscam, via de regra, algum ponto já construído em nossa história emocional. Um lugar onde já havíamos estado e desfrutado de prazer. Por isso, em momentos de traumas, buscamos em nossa história um momento em que éramos felizes e não sabíamos. Todos nós, em algum momento já passamos por isso. Se a nossa educação emocional e cultural, promovida pelo ego, é ampla, crítica e íntegra, se esse "território" é amplo poderemos, frente ao trauma, realocar essa energia libidinal em algum ponto suportável e nos equilibrar emocionalmente. Caso nosso "território" seja estreito, nossa formação cultural e emocional débil ou falha, essa energia libidinal vai buscar sua fixação em alguma estrutura da qual já havíamos evoluído e já havíamos recusado como ultrapassado e que retiramos de nosso ego e já não o reconhecíamos como moralmente aceitável. São, como nos diz Freud, "fixações das quais o ego se havia protegido, no passado, por meio de repressões.", mas, devido as opções limitadas de um ego pouco educado, lá é onde a libido consegue gozar. Pelo princípio do prazer, é lá que a libido se fixa, no passado. Passa, então, a se valer de máximas como a que diz que "antigamente é que era bom". Começa a nascer aí uma recusa ao presente e ao futuro e um ódio a todos aqueles que buscam romper com o passado, local de seu gozo.

Freud, no seu texto clássico "O mal-estar da civilização", opõe, de um lado o ódio e, de outro, a cultura. Cultura seria uma força de Eros (Deus do Amor) e o ódio a maior força de obstáculo à sua realização. O ódio, no entanto, é uma força primordial, anterior ao amor, que nasce da falta provocada pela negação ao princípio do prazer. Na criança, a recusa do seio materno e os complexos subsequentes de castração e de Édipo decorrem dos sentimentos de ódio provocados pela falta ou pela ausência.

Jacques Lacan aproxima o conceito de ódio ao mito de Kakón. Em Hesíodo, Pandora aparece descrita como Kalón Kakón, que em grego significa Belo Mal. Kakón seria o mal. Pandora, como sabemos, é a bela mulher enviada por Zeus que abriu a caixa de onde saíram todos os males da humanidade. Para Lacan, Kakón é uma construção que fazemos ao odiar no outro o ódio que temos em nós. Baseado no caso Aimée, sua paciente que atacou uma atriz num teatro de Paris, Lacan desenvolve que "a mesma imagem que representa seu ideal é também o objeto de seu ódio", uma vez que a paciente era, ela também, aspirante às artes, com sua pretensão à literatura. Os diversos aspectos de sua vida alucinada que fantasiava delírios de perseguição e perigos despertava o ódio a si que ela projetou em sua vítima. "Quem eram os inimigos misteriosos que pareciam estar perseguindo-a?" (pg. 146). Aimée "leva a cabo o ato fatal de violência contra uma pessoa inocente, na qual vê o símbolo do inimigo interior" (LACAN; pg. 146).

Kakón, o monstro que reflete no outro o mal que há em si.

Há, portanto, uma predisposição primordial ao ódio no indivíduo. Esse ódio, enquanto sintoma, decorre de um ego estreito e repressor que cria em si uma auto recusa que é projetada no outro. "não é outra coisa senão o Kakon de seu próprio ser que o alienado procura atingir no objeto que ele fere" (LACAN; pg. 176).

Uma sociedade sadia, com valores humanos, solidários, de acolhimento, com educação crítica e universalizada coíbe, no indivíduo, a proliferação do ódio. Quando há uma forte catarse benevolente no corpo social da comunidade forma-se uma força que Jung chamava de Inconsciente Coletivo, Lacan chamava de Grande Outro e Freud de Superego que faz convergir para o indivíduo esses valores que a sociedade cultiva. Infelizmente, o contrário também é verdadeiro: uma sociedade doente manifesta os sintomas de sua doença no indivíduo.

Em uma sociedade que sofre com o crescimento das manifestações de ódio, como a nossa, na atualidade, há que se buscar, nela também, sua predisposição ao ódio.

Na sociedade brasileira podemos recuperar, em seu passado, momentos traumáticos que achávamos superados, mas que sobrevivem latentes em um inconsciente social.

Gilberto Freire, em Casa Grande & Senzala, resgata uma patologia psicótica na formação de nossa sociedade, representada pelo sistema escravocrata. Sistema este que cobre 3/5 de nosso passado oficial. Ou seja, dos 500 anos, desde a chegada dos portugueses, mais de 300 anos foram sob o regime escravocrata.

Em uma tão longa permanência, não haveria como a escravidão não deixar marcas profundas em nossa formação.
Gilberto Freire aponta para uma formação sadomasoquista, na relação senhor – escravo, construída na longa permanência do sistema de escravidão, que nos formou. Uma formação sádica e masoquista que se esconde em nós, enquanto povo. "Mas esse sadismo de senhor e o correspondente masoquismo de escravo, excedendo a esfera da vida sexual e doméstica, têm-se feito sentir através da nossa formação, em campo mais largo: social e político" (FREIRE, pg.114).

Imaginemos o negrinho, filho de escravo, em interação lúdica com o sinhozinho, filho do Senhor. (Milthon Nascimento, por exemplo, relata a permanência desta relação, filha da escravidão, em sua belíssima canção "Morro Velho" que indico fortemente àqueles que ainda não a conhecem). Esse negrinho, em interação lúdica com o filho do senhor, serve de estímulo à formação sádica de mandonismo, onde o sinhozinho exercita ser senhor e o negrinho, escravo. Na brincadeira de cavalinho, o negrinho será o cavalo; na brincadeira de caçada, o negrinho será a caça; na brincadeira sexual, o negrinho era o objeto do sinhozinho. "Através da submissão do moleque, seu companheiro de brinquedos e expressivamente chamado levapancadas, iniciou-se muitas vezes o menino branco no amor físico" (IDEM; pg. 112).

Ou era isso, ou, para o negrinho, seria o trabalho duro da lavoura, a labuta nas minas, o sol a sol do trabalho similar ao dos animais de carga. Frente a rudeza e a estupidez do trabalho regular dos engenhos, da lavoura ou das minas, a submissão ao sinhozinho era quase um acalanto, um carinho, um gozo. Frente a indigência do trabalho diário, a atenção do sinhozinho era para o escravinho a singularidade que, sabia, nunca mais teria.

O prazer de sofrer a atenção cruel e sádica do filho do senhor pode ter sido o gatilho do masoquismo, identificado por Gilberto Freire.

Assim crescemos como povo-nação, filiados à certeza de nosso mandonismo sádico e na nossa subserviência masoquista.

A abolição do trabalho escravo provocou um desequilíbrio patológico social das relações sádicas de mando. Seu sintoma foi o racismo. O ódio de raças.

O senhor de escravos, contudo, continuou mantendo seu status de senhor, de coronel, de mandatário, enquanto o escravo, o pobre e o imigrante se unificaram em uma única categoria: trabalhadores. O negro, inserido na categoria de trabalhador, foi, mesmo aqui, transformado em lumpesinato, escória, inferior. Nós, brancos e mulatos, preferimos nos colocar ao lado do senhor e sadicamente aprofundamos a exclusão do negro, pela humilhação, pelo deboche, pelo racismo, pelo gozo de nos vermos superiores. Para manter essa posição sádica e mandonista nos submetemos à hierarquia social. Em nome de nosso gozo, aceitamos ser preteridos da política, da economia e dos ganhos do capital. Abrimos mão da democracia e da participação na coisa pública. Em nome do gozo, sofríamos. E, sofrer em gozo é masoquismo.

Nós, do sul e sudeste do país, juntamente com a abolição do trabalho escravo, experimentamos um desenvolvimento econômico imenso e, mesmo sem compartilhar dessa enorme riqueza produzida, vimo-nos a nós mesmos como superiores.

O Norte e o Nordeste, majoritariamente negro e pobre, serviram a nós do mesmo modo que o negrinho serviu ao sinhozinho. Serão eles, nordestinos e nortistas, que sofrerão de nosso sadismo social. Serão eles os nossos trabalhadores mais desclassificados, nossas empregadas domésticas, serventes de pedreiro, nossas prostitutas, lavadeiras, faxineiras... Serão aqueles em quem nos miraremos para neles enxergarmos a nossa superioridade.

Se esse equilíbrio perverso for quebrado, fatalmente experimentaremos diversos e cruéis sintomas individuais e sociais.
E foi, de fato, o que aconteceu em 2003. A cadeia hierárquica de comando foi quebrada. Numa inversão única em nossa história, um nordestino, pobre, da classe trabalhadora assume a posição máxima da política nacional. Posição até então somente assumida por representantes dos senhores. Sua proposta política era de inclusão social e de inserção dos ex-escravos nas escolas, nos supermercados, nos shopping Centers, nos aviões, nas praias... Conviveriam, em condições iguais, com brancos, paulistas, sulistas e classes médias.

O trauma deslocou a libido nacional.

Uma parte da classe média, aquela melhor talhada pela cultura, realocou, num primeiro momento, seu sadismo tradicional para um lugar de orgulho nacional, tendo-se em vista o enorme salto que o Brasil experimentou nesse período em suas relações internacionais. Os índices econômicos favoreciam também um discurso pactuado na sociedade em favor de algo nunca visto: um projeto de país.

Porém, uma outra parte da população, não tão expressiva em número, mas exponencialmente mais expressiva em capital, sentiu o incômodo típico dos psicóticos e começou a alucinar e a promover alucinações coletivas. O desvio de sua energia libidinal sádica construiu seu monstro Kakón, com a dimensão equivalente ao seu poderio econômico e medo político. E como, nas palavras de Lacan, Kakón é o ódio de si projetado no outro; e como "o ato agressivo desfaz a construção delirante" (LACAN; pg. 113), aquele governo passou a ser bombardeado diariamente com acusações de mal feitos que os acusadores, eles próprios, se acostumaram, por décadas, a fazer.

Em pouco tempo, a energia libidinal ainda mal acomodada em um lugar novo e ainda a ser melhor construído, desloca-se para um ponto retrógrado do inconsciente nacional e o sadismo originário aflora em manifestações de ódio. Principalmente pela facilidade de manifestação, favorecida pelas redes sociais.

Não é por outro motivo que as postagens dos partidários das posturas de ódio (que conhecemos bem) sempre se manifestam com xingamentos e palavrões. São as manifestações sexuadas a partir daquele lugar onde eles gozam. "Viado", "corno", "vai tomar no cu", "vão se foder", são gozos de expressões que remetem sempre ao seu sexo reprimido. Manifestações de uma libido alocada numa posição distante da cultura, lá onde o ódio faz gozar.

A construção de um espaço político diferenciado e de inclusão, dentro de uma estrutura política centenária de exclusão e de exclusivismo de uma só classe social, somente poderá ser realizada com a equivalente construção de estruturas do ego que a suportem e a adotem como uma posição de gozo. Caso contrário ele ruirá rapidamente frente ao simples questionamento: o que você prefere, igualdade ou superioridade sobre o outro?

Não é outra coisa a afirmação de que Lula é analfabeto (eu não sou, logo sou superior), Lula é nordestino (eu, sulista, sou superior), de que petistas são mortadela, alimento característico do pobre, frente ao qual eu sou superior.

As posturas de ódio promovem uma descarga fenomenal de energia libidinal. Elas, porém, não curam. São sintomas devastadores que invariavelmente desembocam em fatalidades, violências, fanatismos. Pois os que odeiam, não odeiam o objeto ao qual miram seu ódio, odeiam a si próprios e querem destruir no outro o ódio que têm em si. Dessa forma, assim que destruírem um objeto de ódio, outro aparecerá. Ora será o PT, ora a pedofilia, ora Paulo Freire, ora as obras de arte, num contínuo e infindável rosário de ódio.

Como já demonstrou Freud, o ódio é o avesso da cultura. Nesse sentido, comprar a briga contra os militantes do ódio usando como arma um contra ódio, só faz fortalecer esse sentimento.

Contra o ódio, cultura!

 

 

 

Prof. Heraldo Tovani

Publicado inicialmente em Brasil247

OPINIÃO DO PROFESSOR MARCO AURÉLIO  

Em 07 de abril de 2011, uma escola pública em Realengo foi invadida por Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos. Wellington matou doze alunos, com idade de 13 a 16 anos, e feriu mais treze. Interceptado por policiais, o assassino cometeu suicídio. Na época, a presidente Dilma Roussef decretou luto nacional de três dias. Segundo levantamentos, Wellington sofria bulling e lia tudo sobre atentados terroristas.

Em Janaúba, Minas Gerais, dia 05 de outubro agora,  Damião Soares dos Santos. 50 anos, funcionario da creche, ateou fogo no proprio corpo  e em crianças da creche, sendo reponsável pela morte de onze crianças até agora, inclusive ele próprio. A professora Helley Abreu Batista, de 43 anos, também falecida, impediu que a tragédia fosse maior. O atentado feriu 45 pessoas, ao todo.

Em Goiânia, dia 20 de outubro de 2017, um estudante de 14 anos do Colégio Goyases, uma escola particular, atirou em seis colegas de sala. Dois morreram e quatro ficaram feridos. Há informações que ele sofria bulling e era chamado de “fedido” por alguns colegas. Entre os colegas assassinados está seu melhor amigo na escola.  Tudo isso, não justifica o gesto. A arma pertencia aos pais, casal de militares.

Três fatos que se interligam. Todos sabemos. Revelando algo de errado em nossas escolas, que infelizmente não acompanharam as mudanças do mundo contemporâneo. Qual é então o grande problema de nossas escolas?

Para a OMS (Organização Mundial de Saúde) em uma década a Depressão deve ser a doença mais preocupante no mundo. Cresceu 18% entre 2005 e 2015. Mais de 300 milhões de pessoas no mundo. Outra coisa: redes sociais, desafios virtuais e demais brincadeiras perigosas isolacionistas e virtuais colocam o tema violência em destaque nas escolas e na vida.

Para especialistas “Bulling e suicídio levam à depressão. Doença que nos faz parar de enxergar a realidade em nossa volta. Trazendo a violência para as escolas, como temos acompanhado”. O que fazer então?

Primeiro: transformar a escola num espaço de felicidade, solidariedade e amizade. Sem o stress do conteúdo das últimas décadas do século passado, onde não havia espaço para a diversidade.

Segundo: acompanhar o aluno no seu dia a dia, nas suas relações, sem rótulos ou controle autoritário, tão presente nas nossas escolas. Com ações coletivas entre professores, alunos e coordenação.

Terceiro: conjugar alunos, famílias e professores para debater e definir uma nova cultura educacional. Com diálogo, liberdade, debates sobre multidiversidade, gênero, inclusão e exclusão econômica.

Por fim, ter Darcy Ribeiro, Michel Foucault, Paulo Freire e António Nóvoa como exemplos de vida, de democracia e compreensão do mundo.

 

 

Marco Aurélio Rodrigues Freitas é jornalista, historiador, biomédico e professor das redes municipal e estadual de São Paulo. Escreve todas as semanas no site Planeta Osasco. 

IMG CORREIO PAULISTA

OPINIÃO DO PROFESSOR MARCO AURÉLIO       

Dia 19/10/2017 – MANCHETE NO WEB DIÁRIO. “Manifestantes contra Doria serão exonerados” Vereador Ribamar foi taxativo em mandar embora comissionados que jogaram ovo em carro de Doria...

Dia 19/10/2017 – MANCHETE NA FOLHA DE SÃO PAULO. Governo promete cargos ao Centrão antes da decisão da segunda denúncia. Planalto destrava nomeações de siglas como PP, PR e PTB que estavam represadas.

Dia 18/10/2-17 - MANCHETE MENOR NO ESTADO DE SÃO PAULO. Portaria do trabalho escravo provoca reações.

Dia 17/10/2017 – MANCHETE MENOR NO ESTADO DE SÃO PAULO. Governo dificulta pena por trabalho escravo.

Dia 16/10/2017 – MANCHETE NO ESTADO DE SÃO PAULO. Vídeo de delação provoca crise entre Maia e Planalto. Para equipe de Temer, Câmara poderia ter evitado publicação em seu portal de depoimento de Lúcio Funaro.

Separei algumas manchetes dos principais jornais de São Paulo e uma do Web Diário.  Em todas, a gente percebe um mundo paralelo, bem diferente do nosso. Em Osasco está proibido fazer manifestação, a punição é a demissão proposta por um vereador ... No Brasil, o Governo Federal troca apoio por cargos e nem liga para seu record de condenação popular, que está em 95%. Já o Senado livra Aécio e nos revela que existem dois Brasis, o da elite que vive acima das leis e o nosso Brasil, dos pobres mortais, onde a lei e os impostos não nos perdoam.

Acreditem leitores, o Trabalho Escravo ficou em segundo plano. Para um país que foi o último do mundo a acabar com a escravidão africana no mundo em 1888, puni-la no século XXI parece não ser prioridade desse governo, nem um sonho dos ruralistas desde a Constituinte de 1988. Os ruralistas e o Centrão sempre questionaram o combate à escravidão, mesmo sabendo que a ONU, a Constituição Brasileira e o Código Penal Nacional condenam o trabalho escravo. O Brasil vive um retrocesso sem tamanho, fruto de um governo que parece demais com a Ditadura Militar. Será que teremos mesmo eleições gerais no ano que vem, contrariando ruralistas, PMDB e PSDB?

 

Em Osasco, nada é diferente. Um vereador, envolvido em gestos e palavras violentas contra uma outra vereadora da Câmara Municipal, decidiu agora ameaçar trabalhadores com demissões, esquecendo que a cidade tem um Prefeito e que a liberdade é um direito mundial desde a Revolução Francesa. Liberdade, como narra o ator Paulo José no filme curta “Ilha das Flores” é isso:

O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser livre.  Livre é o estado daquele que tem liberdade.  Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

O que coloca os seres humanos na Ilha das Flores, depois dos porcos na prioridade de escolha de alimentos é o fato de não terem dinheiro nem dono.

Narração de Paulo José, filme curta-metragem ILHA DAS FLORES, de 1989. Produção: Casa do Cinema – Porto Alegre.

Marco Aurélio Rodrigues Freitas é jornalista, historiador, biomédico e professor das redes municipal de estadual de São Paulo. Escreve todas as semanas no site Planeta Osasco. 

 

 

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