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O futuro do jornalismo tem sido tema de muitos debates, mas poucas empresas de comunicação têm envolvido suas equipes em planejamento ou tomado ações concretas para sobreviver às mudanças, cada vez mais impactantes, da Era da Informação Digital. A constatação é de uma pesquisa feita pelo Future Today Institute, divulgada no encontro anual da Online News Association, em Washington (DC) no início de outubro.

A preocupação com o futuro pessoal é bem mais frequente entre os jornalistas (94%) que a média da população dos Estados Unidos (32%), mas quase 70% dos profissionais que atuam em organizações dos Estados Unidos, Canadá, América Latina, Europa e Sudeste Asiático consultados na pesquisa disseram que não há nas redações um monitoramento efetivo de tendências tecnológicas que podem impactar a produção e distribuição de notícias além dos próximos 5 ou 10 anos.

O levantamento constatou que a maioria dos gestores, supostamente com maiores responsabilidades estratégicas, têm se concentrado em resolver questões de impacto imediato, como escassez de recursos e manutenção de equipes.

Não é possível considerar a modelagem do futuro da mídia sem intervenções no presente. É consenso entre os futuristas que os dados pessoais, capturados pelas diversas plataformas, vão se tornar ainda mais valiosos (data = next oil). Que computadores e smartphones tendem a se tornar cada vez mais “vestíveis”. Que sistemas que usam “Machine Learning” vão ser capazes de tomar decisões lógicas com muita rapidez, mas ainda estarão sujeitos a equívocos graves. E especialmente, que apenas 9 grandes empresas de tecnologia, com evidentes vantagens no uso da Inteligência Artificial, tendem a controlar toda a distribuição de notícias no planeta.

IMPACTOS

Os pesquisadores buscam estabelecer conexões entre inovações tecnológicas capazes de gerar tendências e a partir delas, construir cenários para o futuro do jornalismo tanto do ponto de vista da empresas quanto da sociedade.

Porque Jornalistas deveriam se preocupar com Visual Computing?

Visual Computing é uma tecnologia que pode equipar ferramentas capazes de reconhecer e distinguir pessoas, objetos, lugares em vários contextos. Tende a se popularizar pelo uso em vários tipos de dispositivos. Desde satélites (na órbita da Terra) menores e mais baratos a equipamentos portáteis capazes de análises detalhadas, com aplicações na saúde, psicologia, marketing, segurança, etc… Tem sido implantado na China, com grande apoio do governo, preocupado com o controle social. A tecnologia tem potencial para contribuir na produção e na interação do público com o conteúdo.

Cenário otimista

Ponto de vista do Jornalismo: Visual Computing se torna uma poderosa ferramenta para produção de matérias jornalísticas. É usado também como plataforma de distribuição. Organizações de notícias desenvolvem um modelo de negócios para tornar o noticiário mais visual, atraente e sustentável.

De ponto de vista da Sociedade: os pesquisadores encontram solução para o jornalismo tendencioso.
Tudo o que podemos ver poderá ser pesquisado e confirmado. Compreenderemos melhor o mundo e tomaremos melhores decisões.

Cenário Pragmático

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias não terão um modelo de negócios que incorpore as ferramentas de Visual Computing. A distribuição de notícias fica ainda mais difusa, tornando mais difícil sustentar as empresas de comunicação. Algumas abandonam o negócio.

Do ponto de vista da Sociedade: o jornalismo tendencioso se generaliza. Continuaremos ensinando computadores a reconhecer e aprender a partir de estereótipos. Advento de discriminação digital generalizada. As empresas prometem melhorar os algoritmos, mas muito poucas mudanças serão constatadas.

Cenário Catastrófico

Do ponto de vista do Jornalismo: Visual Computing conquista o mercado. As empresas de comunicação não possuem um modelo comercial pronto. Eles perdem anunciantes e market share para novas plataformas de notícias com mais recursos tecnológicos e visuais. Jornalistas desempregados.

Do ponto de vista da Sociedade: se tornará ainda mais difícil detectar notícias falsas em função da proliferação de novos recursos de sabotagem de conteúdo. Máquinas, treinadas a partir de estereótipos horríveis, agora tomam decisões que afetam nossas vidas.

Modelo probabilístico
? Cenário Otimista = 0%
? Cenário Pragmático = 70%
? Cenário Catastrófico =30%

Porque jornalistas deveriam se preocupar com Interface de Voz?

Porque 50% das pessoas em países industrializados que interagem com computadores usarão voz até 2021. Em muito pouco tempo as pessoas estarão depositando muita confiança nas máquinas e serão os algoritmos a tomar decisões por nós. Nesse contexto há risco de que marcas de organizações de comunicação deixem de participar do diálogo.

Cenário Otimista

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias investem e priorizam interfaces de reconhecimento de voz em todas as unidades de negócios. Os gestores começam a testar e trabalhar com modelos comerciais radicalmente diferentes. As empresas de comunicação prosperam com a popularização dessas interfaces praticamente “invisíveis”.

Do ponto de vista da Sociedade: os jornalistas desenvolvem formas de autenticar o vídeo antes de distribuí-lo. Facebook, Google e Twitter desenvolvem sistemas de autenticação, rejeitam ou bloqueiam vídeos falsos. As pessoas ficam mais bem informadas.

Cenário Pragmático

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias continuam a lançar ferramentas com interfaces de voz, mas não desenvolvem uma estratégia de negócios para esse recurso. Uma vez que as grandes corporações tecnológicas dominam as interfaces, as empresas de comunicação tendem a perder receitas rapidamente.

Do ponto de vista da Sociedade: como as grandes corporações tecnológicas não se preocupam em estabelecer parcerias reais com as empresas de comunicação tradicionais, notícias falsas proliferam e repórteres são enganados. A confiança no jornalismo cai, a desinformação se generaliza a sociedade civil entra em tensão.

Cenário catastrófico

Do ponto de vista do Jornalismo: as empresas de comunicação nunca desenvolvem um modelo de negócios para a era das interfaces invisíveis. Elas não encontram uma maneira razoável de monetizar seu conteúdo. Falência generalizada; jornalistas sem trabalho.

Do ponto de vista da Sociedade: notícias falsas enganam e influenciam líderes globais. Distúrbios generalizados, confusão, violência. A opinião pública está mal informada. Acabamos em uma guerra cibernética ou nuclear.

Modelo Probabilístico:
? Cenário Otimista = 0%
? Cenário Pragmático = 80%
? Cenário Catastrófico= 20%

Porque jornalistas do futuro deveriam se preocupar com a qualidade das notícias?

Porque velocidade da apuração é incongruente com a qualidade, especialmente nesta era da aprendizagem de máquinas.Os sistemas de distribuição modernos foram construídos para priorizar a velocidade, e não a precisão do conteúdo jornalístico. E é preciso considerar nesse contexto outros fatores que podem influenciar a produção de conteúdo.

Nos próximos 10 anos as plataformas digitais e os distribuidores de conteúdo enfrentarão iniciativas de regulamentação governamental que podem estimular ainda mais a tendência de estabelecimento das chamadas “splinternets”, espécie de barreira tecnológica que pode filtrar a experiência de uso e acesso a conteúdos da internet a partir de questões políticas, ideológicas, comerciais, segurança, etc. Outro impacto importante é o da adoção de novos protocolos digitais e descentralizados para validar relações comerciais, como o blockchain.

Cenário Otimista

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias se unem e firmam posição quanto aos valores de verificação e a transparência.
As empresas de comunicação reconquistam participação no mercado, os consumidores pagam pelo acesso, a indústria de mídia se tornar sustentável.

Do ponto de vista da Sociedade:

As “splinternets” são evitadas. Os ciclos de produção e distribuição de notícias é reduzido para uma taxa mais razoável. Os consumidores consomem muito menos notícias falsas. A humanidade está mais bem informada.

Cenário Pragmático

Do ponto de vista do Jornalismo: o ciclo de produção e distribuição de notícias acelera.
Os jornalistas gastam o mesmo tempo na correção de registros de informações quanto da produção de novos conteúdos.

Do ponto de vista da Sociedade: a confiança na mídia — toda — desmorona. As splinternets regionais tornam-se uma coisa real. Google e Facebook gastam centenas de milhões de dólares para desenvolver sistemas regionais. Erros são cometidos. Notícias falsas aumentam.

Cenário Catastrófico

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias perdem participação de mercado para startups que publicam notícias com alta frequência. As notícias geradas por máquinas, a partir de sentimentos e outros detalhes captados do público tornam-se padrão. Colapso das organizações de notícias.

Do ponto de vista a Sociedade: os distribuidores não conseguem lidar com um sistema global de “splinternets“. Os sistemas se demonstram vulneráveis a ataques. Campanhas de desinformação se generalizam. A democracia se desmorona.

Modelo Probabilístico
? Cenário Otimista = 0%
? Cenário Pragmático = 50%
? Cenário Catastrófico = 50%

Diante da adesão nula aos prognósticos otimistas, a especialista Amy Webb, CEO do Future Today Institute, fez questão de enfatizar que a boa notícia é que os cenários projetados não ocorreram ainda. Espera-se que possam ser modificados a partir de novas ideias, mas principalmente pelo engajamento em ações concretas e decisões de cada indivíduo (não apenas de profissionais de comunicação) disposto a se posicionar diante dos valores que deseja preservar no futuro.

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Reberson Ricci Ius é jornalista de TV e Mídias Digitais, consultor de Gestão de Comunicação e Estratégias de Conteúdo na plataforma Arbache Innovations.

Foto: Arquivo/Agência Brasil

A intenção aqui é refletir sobre o lugar da religião na Educação Básica. Algumas questões se impõem: é necessário abordar as religiões nas escolas? O ensino religioso contempla esse papel, sem deixar de valorizar a diversidade religiosa e desconstruir estereótipos? Todo tipo de ensino religioso fere o princípio da laicidade do Estado?

Não tenho a pretensão de oferecer respostas definitivas para questões tão complexas, mas aponto para aquilo que considero importante. Para desenvolver essa reflexão sobre a religião na Educação Básica, parto de três premissas:
– é fundamental abordar as religiões na Educação Básica;
– é preciso definir de forma clara que tipo de ensino religioso será oferecido nas escolas;
– mesmo defendendo um ensino religioso não­ confessional ou uma disciplina como história das religiões, é preciso admitir que nem todo tipo de ensino religioso confessional fere o princípio da laicidade.

1. Por que é fundamental abordar as religiões na Educação Básica?

Por si só, a exclusão de qualquer abordagem das religiões nas escolas não garante a formação adequada dos estudantes para exercerem a cidadania e respeitarem os direitos humanos. Não garante nem mesmo a convivência pacífica entre estudantes e profissionais da educação adeptos de diferentes crenças ou descrenças.

Antes de defender a exclusão de qualquer abordagem das religiões, é preciso lembrar que a Educação Básica tem um compromisso com a promoção dos direitos humanos, com a promoção da liberdade religiosa e, consequentemente, com o combate à intolerância religiosa.

A abordagem das religiões pode contribuir no sentido de combater a intolerância religiosa. Constata-se, nas últimas décadas, um crescimento dos casos de intolerância religiosa no Brasil, principalmente ataques contra adeptos das religiões afro­brasileiras (ou religiões brasileiras de matrizes africanas) e contra muçulmanos.

Isso também tem seus reflexos na Educação Básica. Algumas pesquisas indicam que estudantes e profissionais da educação que são adeptos das religiões minoritárias muitas vezes acabam negando suas identidades religiosas para evitarem constrangimentos e conflitos, principalmente quando as escolas obrigam ou convocam todos os estudantes a participarem de momentos de rezas ou orações.

“É preciso pensar em uma forma de abordar as religiões até mesmo com crianças pequenas. Não se trata-se de utilizar diferentes crenças para promover o respeito aos direitos humanos, mas sim de enfatizar que adeptos de diferentes crenças ou descrenças podem assumir publicamente suas identidades religiosas ou arreligiosas, merecem respeito e amizade, não podem ser obrigados a rezar ou orar, e não são simplesmente pessoas atrasadas, perigosas, sujas, estúpidas ou cheias de demônios”

O argumento de que crianças pequenas não podem ser expostas a conteúdos religiosos conflitantes ao que recebem em casa – argumento daqueles que defendem a exclusão de qualquer abordagem das religiões – ignora que muitas dessas crianças pequenas acabam negando sua própria identidade religiosa dentro das escolas. Por isso, é preciso pensar em uma forma de abordar as religiões até mesmo com crianças pequenas.

Não se trata de utilizar diferentes crenças para promover o respeito aos direitos humanos, mas sim de enfatizar que adeptos de diferentes crenças ou descrenças podem assumir publicamente sua identidade religiosas ou arreligiosas, merecem respeito e amizade, não podem ser obrigados a rezar ou orar, e não são simplesmente pessoas atrasadas, perigosas, sujas, estúpidas ou cheias de demônios.

As crenças e práticas católicas e evangélicas não podem ser privilegiadas na abordagem das religiões, a qual também não pode tomá-­las como referência para abordar outras crenças e práticas religiosas. Por quê? Porque os grupos católicos e evangélicos já têm grande visibilidade na sociedade brasileira e esse tipo de abordagem não contribuirá para combater a intolerância religiosa e promover o respeito às minorias religiosas (candomblecistas, umbandistas, muçulmanos, entre outros grupos). Muitos estudantes não terão outra oportunidade de conhecer alguns aspectos de diferentes crenças e descrenças no sentido de desconstruir estereótipos e preconceitos.

2. Por que é preciso definir de forma clara que tipo de ensino religioso será oferecido nas escolas?

O ensino religioso pode desempenhar esse papel na promoção da liberdade religiosa e no combate à intolerância religiosa. Infelizmente, diversas soluções dadas ao ensino religioso são muito ruins, porque o MEC delegou a responsabilidade sobre os conteúdos do ensino religioso aos estados e municípios, os quais, por sua vez, privilegiam os grupos religiosos majoritários (católicos e evangélicos).

Mesmo com as menções ao ensino religioso na Constituição e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, lei nº 9.934 de 1996), como pode ser visto abaixo, falta um paradigma nacional para definir os conteúdos dessa disciplina e o profissional habilitado para ministrar as aulas:

“O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.” (Constituição, art. 210, parágrafo 1º)

“O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.” (LDB, art. 33)

Essa falta de um paradigma nacional fez com que estados e municípios passassem a oferecer o ensino religioso com diferentes modelos (confessional, interconfessional ou não ­confessional) e ministrado por diferentes professores, inclusive na condição de representantes de confissões religiosas.

As confissões religiosas majoritárias, juntamente com diversos estados e municípios, chegam a definir os conteúdos do ensino religioso. Isso evidencia que em muitos casos o ensino religioso não tem desempenhado o papel de abordar diferentes religiões, de valorizar a diversidade religiosa e de desconstruir estereótipos.

3. Porque nem todo tipo de ensino religioso confessional fere o princípio da laicidade?

O ensino religioso de modelo confessional tem sido muito contestado. A Procuradoria ­Geral da República (PGR) entrou com uma ação (ADI 4.439 de 2010) contestando a constitucionalidade do ensino religioso de modelo confessional e interconfessional. O argumento da PGR é de que a subvenção estatal ao ensino religioso ligado direta ou indiretamente a alguma confissão religiosa fere o artigo 19 da Constituição:

É vedado ao estado “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público; recusar fé aos documentos públicos; criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.” (Constituição, art. 19)

Na minha opinião, a subvenção estatal ao ensino religioso confessional fere o princípio da laicidade. O estado não pode pagar o salário de um representante de uma confissão religiosa que ministra uma disciplina com conteúdo determinado por essa confissão religiosa, como ocorre em diversos estados e municípios brasileiros.

A primeira redação da LDB já previa o ensino religioso oferecido pelas confissões religiosas “sem ônus aos cofres públicos” – trecho que foi suprimido. Mas mesmo em caráter facultativo e sem ônus aos cofres públicos, o ensino religioso confessional pode constranger estudantes que sentem-se obrigados a sair ou a ficar na sala durante as aulas.

Com relação à ação da Procuradoria Geral da República (ADI 4.439 de 2010), no dia 27 de setembro de 2017 o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou que a ação é improcedente. Ou seja, a maioria dos ministros considerou que o ensino religioso de modelo confessional, por conta de seu caráter facultativo e supostamente não proselitista, não é inconstitucional.

Contrariando a opinião dos ministros que defenderam apenas o modelo não ­confessional, o STF entendeu que a subvenção estatal ao ensino religioso confessional ou a remuneração de professores na condição de representantes de confissões religiosas – algo que acontece em alguns estados e municípios – são justificáveis porque se trata de uma espécie de parceria de interesse público; uma interpretação extremamente questionável. Uma decisão que mantém tudo da mesma forma, a cargo dos estados e municípios, e que evidencia mais uma vez a omissão do Ministério da Educação (MEC) em relação ao ensino religioso.

Apesar dos problemas mencionados acima, não convém afirmar ou defender que as confissões religiosas não devem utilizar o espaço público para se manifestarem e propagarem suas crenças. Com a devida autorização das comunidades escolares, as confissões religiosas podem promover atividades religiosas nas escolas públicas – isso por si só não fere o princípio da laicidade.

Nesse sentido, o ensino religioso confessional poderia ser oferecido em horários alternativos para não constranger estudantes, e também em caráter facultativo e principalmente sem ônus aos cofres públicos. Essa seria a melhor forma de harmonizar o ensino religioso confessional com o princípio da laicidade. E mesmo as aulas de ensino religioso não confessional, ministradas por professores que não são representantes de nenhuma confissão religiosa, podem eventualmente contar com a participação de religiosos de diferentes confissões.

“É fundamental abordar as religiões na Educação Básica, isso não deve ser confundido com momentos de rezas ou orações, ou mesmo com aulas de ensino religioso comprometidas com determinadas confissões religiosas. As escolas podem ceder algum espaço para atividades religiosas em horários alternativos ou podem convidar religiosos para palestras e diálogos – isso não fere o princípio da laicidade. Mas o principal compromisso deve ser com a liberdade religiosa dos próprios estudantes”
Palavras finais: Compromisso com a liberdade religiosa dos estudantes

Afirmo novamente que é fundamental abordar as religiões na Educação Básica, isso não deve ser confundido com momentos de rezas ou orações, ou mesmo com aulas de ensino religioso comprometidas com determinadas confissões religiosas. As escolas podem ceder algum espaço para atividades religiosas em horários alternativos ou podem convidar religiosos para palestras e diálogos – isso não fere o princípio da laicidade.

Mas o principal compromisso deve ser com a liberdade religiosa dos próprios estudantes. Principalmente os professores católicos e evangélicos precisam se sensibilizar e agir no sentido de evitar qualquer constrangimento e evitar qualquer negação das identidades religiosas ou arreligiosas por parte dos estudantes.

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Silas Fiorotti é evangélico, cientista social, mestre em Ciências da Religião, doutorando em Antropologia Social, pesquisador do CERNe­USP e coordenador do projeto de extensão Diversidade Religiosa em Sala de Aula, do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária.

À medida que o tempo passa nos aproximamos do futurístico ano de 1984. Toda a contagem de tempo é uma abstração racional do ser humano para entender a natureza, por isso pouco importa se estamos em 2017, em 5778, em 1438 ou no ano do Galo de Fogo. O que nos interessa neste período histórico é que estamos cada vez mais próximos do controle social antecipado, talvez profetizado, pelo escritor George Orwell em sua famosa obra de ficção científica.

O xadrez político das democracias ganhou uma nova peça que se move com a leveza de uma rainha em meio a peões distraídos. Atuando no caro mercado das campanhas eleitorais desde 2013, a Cambridge Analytica deve chegar com força para operar nas eleições presidenciais brasileiras de 2018. Essa companhia britânica utiliza análise de dados disponíveis na internet para influenciar a comunicação de usuários nas redes sociais para beneficiar o candidato que contratou os seus serviços.

A Cambridge Analytica ganhou notoriedade após ser bem-sucedida na vitoriosa campanha de Donald Trump nos EUA e na causa da saída do Reino Unido da União Europeia. Da mesma forma atua a Stilingue, que lê dados na internet com um aplicativo de inteligência artificial e robôs que identificam o perfil psicológico do eleitorado.

Cada vez que alguém faz login em uma rede social, compartilha, interage, comenta em uma reportagem em um site jornalístico ou na própria rede, essas companhias são munidas com toneladas de informações que são processadas para alimentar bancos de dados para identificar a tendência de pensamento e comportamento do eleitor. A maquiagem na aparência e no discurso dos candidatos, algo que os marqueteiros já sabiam fazer, agora ganha a precisão de uma máquina. É como se trocássemos o artesanato na fabricação de um político por uma linha de montagem automatizada.

Em um cenário confuso em que pessoas que se dizem de direita exigem educação e saúde custeados pelo Estado, e esquerdistas que se sentem pouco representados pelas forças vacantes, o aguçado olhar de Grande Irmão de companhias como a Cambridge Analytica e a Stilingue supera as divisões demográficas, etárias, educacionais e ideológicas para explorar perfis psicológicos de acordo como os medos, os desejos, as ambições e as rejeições do que o cidadão manifesta na internet por meio de uma inteligência artificial que realiza o que a ciência da computação identifica como “processamento de linguagem natural”.

Ou seja, o sistema é capaz de aprender, entender e interpretar um idioma para analisar o que é divulgado na imprensa e nas redes sociais. Munido de dados que leem o desejo da maioria, um político pode saber se deve se vestir de gari, de policial, de taxista ou de garoto de programa para adaptar o seu discurso e agradar a parcela de seu eleitorado que lhe garante a manutenção no poder. Igualmente a ferramenta é útil para convencer os indecisos, pois o que é dito se adapta ao que o cidadão quer ouvir.

O maior exemplo brasileiro do uso de tecnologia para aumentar o seu grau de influência na internet e fora dela é do prefeito de São Paulo João Doria. Desde a sua contestada pré-candidatura nas prévias do PSDB até a disputa pelo poder executivo paulistano, Doria se beneficiou da inteligência artificial para angariar votos e conquistar seguidores. Hoje há cinco softwares que trabalham com o objetivo de avaliar o impacto de tudo o que está relacionado a ele nas redes sociais para torná-lo mais agradável ao cidadão. O serviço da inteligência artificial é realizar uma “análise de sentimento” das redes sociais, algo possível apenas para seres humanos, para reduzir os impactos negativos e potencializar os positivos de cada discurso de Doria.

Em cada vez mais frequentes viagens pelo Brasil para se tornar mais conhecido, João Doria disputa com o governador paulista Geraldo Alckmin o posto de candidato a presidente da república pelo PSDB. Na lista dos possíveis presidenciáveis, João Doria é o que tem mais contato nas redes sociais com os eleitores.

Segundo Daniel Braga, sócio da Social QI, que tem Doria como cliente da empresa, entre os 114 milhões de usuários únicos do Facebook em território nacional, 23,5% já tiveram alguma interação com a página do prefeito de São Paulo. O segundo colocado entre os possíveis candidatos a ocupar a presidência em 2018 é o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) com 7,1%.

Em 2018, o olho que tudo vê o que fazemos na internet está prestes a atuar nas próximas eleições no Brasil. Os resultados obtidos pela Cambridge Analytica nos EUA e no Reino Unido mostram que a observação do comportamento das pessoas no Facebook, no Twitter, no Instagram e no WhatsApp dá uma grande vantagem aos candidatos municiados por essa tecnologia.

A companhia, diretamente ligada ao bilionário Robert Mercer, um cientista computacional norte-americano, defensor de causas conservadoras e de uma agenda de direita, ao atuar para convencer as pessoas de ideias de um grupo político, põe a inteligência artificial a pautar o tom eleitoral e a influenciar a mudança do discurso dos humanos para agradar outros humanos.

Em uma análise sombria, é como se um robô instrutor ensinasse um projeto de sedutor a se tornar uma espécie de psicopata que está interessado apenas em conseguir o que quer, alimentando a sua ambição e pagando o preço que custar para atingir o seu objetivo.

Depois de uma combativa e rancorosa eleição presidencial em 2014, como se comportará o eleitor brasileiro sob o olhar perscrutador do Grande Irmão manipulador de dados em 2018? Cada opinião pró ou contra um candidato, cada compartilhamento de notícia falsa ou verdadeira, cada meme produzido passará perante o escrutínio de softwares que traçarão os perfis psicológicos de cada um. Em meio a tantos compartilhamentos em que as pessoas não leem mais do que a manchete do que passam adiante, os maiores beneficiados serão sempre os que pagarem mais caro pelo melhor serviço de espionagem eleitoral.

Ainda que o olho que tudo vê que se aproxima de nós não vista as roupas do ditador do livro de George Orwell, estamos cada vez mais confundindo democracia com tirania da maioria. O que falta a alguns dos políticos eleitos é o entendimento de que algumas minorias não têm representatividade no Congresso e nas Assembleias Legislativas, mas isso não significa que devam ser subjugados à força numérica de um grupo.

Nesse sentido, a adequação de discursos para agradar uma parcela maior da população com interesses de perpetuação no poder propicia a possibilidade de se pôr em risco aquelas pessoas que não tem voz ativa no nosso modelo democrático. É compreensível que o cidadão comum não entenda essa diferença, mas um representante do povo, uma autoridade do Estado tem a obrigação de saber que as minorias têm de ser respeitadas e que os seus direitos devem ser garantidos com base na Constituição Federal.

Talvez em um futuro distante (2084?), já nem precisemos eleger vereadores, deputados e senadores em nossa democracia representativa, pois bastará que um aplicativo rastreie o que quer o eleitorado para legislar e estabelecer as prioridades da comunidade; mas, por enquanto, tudo o que você disser poderá ser usado para influenciá-lo nas próximas eleições.

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Pablo Antunes é escritor e psicólogo. Autor do livro “Poligamia Ou O Amor Maior”, escreve no blog LiteromaQuia.

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