O entregador de leite do bairro, o seu Luisinho, entrou à esquerda para encurtar o caminho e economizar uns metros de rua, e contrariou o sinal de trânsito. Ele sabia que era proibido, mas se todo mundo faz, porque não ele? Nem bem chegou à porta da padaria para descarregar, e o o seu guarda o abordou já com lápis e talão de multas na mão. "
O senhor cometeu uma infração de trânsito e vai ser multado. " O pobre motorista ficou paralisado por algum tempo e buscou em todos os seus arquivos mentais o que dizer ou o que fazer. Nada, um branco total, havia sido pilhado em flagrante delito e não restava outra alternativa se não confessar e permitir que o policial pusesse as algemas nos seus pulsos. "
O senhor vai ser multado, disse mais uma vez o policial. O amigo da vacas do sítio do Manezinho soltou um grunhido, " Pode multar seu guarda, eu estou errado. " " O senhor não está entendendo, eu ainda não lavrei a multa, mas posso fazê-lo a qualquer momento. "
"Tá bem seu guarda, pode multar. "
E nada de multa, o diálogo reduzido a essas duas afirmações durou tempão até que Seu Luis escapou de ter que repor a multa para a empresa dona da leiteria. Mas afinal, o que ele queria, por que não multara, por que repetiu tantas vezes a mesma coisa, ameaçou, remexeu no talão, na bic e depois foi embora?
Para o leiteiro havia uma explicação, tinha feito uma coisa errada que todos faziam, virar para a esquerda na avenida, mas se recusou a dar uma propina para escapar.
É verdade que era uma merrequinha, nada parecida com os dez por cento que se paga com grandes contratações com o dinheiro público, mas, ora essa, era uma questão de honra, ou de ética como dizia o Toninho, o aposentado do correio. E ética é ética repetia ele e ética é aquilo que a gente faz quando ninguém está vendo. No mar revolto da corrupção ampla geral e irrestrita era a gotinha d água que o beija flor levava para apagar um grande incêndio na floresta.
A corrupção é uma árvore cujo veneno alimenta suas raízes, escreveu Mariano Grondona, um colunista do La Nación. No plano da vontade, supõe que alguém transgride conscientemente o código ético, cujo cumprimento o mostraria como uma pessoa de bem.
No plano da inteligência, aparece quando um governante confunde o patrimônio público com o seu patrimônio privado. O dicionário define " patrimonilaismo" neste sentido como " a tendência de uma governante a considerar os bens públicos como bens próprios. Prossegue Grondona, a disseminação desta tendência por sua vez implica que o governante " patrimonialista" goza de um poder tão grande que se esquiva do controle de outros órgãos estatais.
Os exemplos são sempre recentes e o dia a dia mostra que a estratégia mais eficiente para se safar do controle e das punições é ficar no cargo custe o que custar. Renunciar jamais, sair de cena, nem pensar, é só manobrar bem as forças políticas, ameaçar os contaminados, se esconder nos palácios, avisar a secretária que não está para ninguém, que tudo passa. Segundo um dos enfrenta dores de escândalos de corrupção, não há crise que não passe. Já passou no senado, porque não no governo ?
Somente os órgãos controladores não impedem o veneno de escorrer pelo tronco da árvore social e alimentar suas raízes. Não faltam leis, decretos, tribunais, códigos, cortes, togas, alfarrábios, imprensa livre, policias de todos os matizes e até scanner para investigar cuecas, meias e bolsas carregadoras de propinas.
O que falta é cidadania. Falta o Seu Luis, o homem que resistiu a um pequeno desejo de corromper um guarda de trânsito. Esse é o cara.
É aquele que é capaz se multiplicar em milhares e milhares e um dia chegar aos milhões. É o cidadão comum que vai chegar em casa e não vai se gabar diante de sua família que quebrou uma multa com uma nota de dez reais. Vai dizer que peitou o desejo de corromper, e que é isso que todos devem fazer. 
O gesto pode parecer pequeno diante da quantidade fantástica de dinheiro que rola de forma ilegal e ante ética, sob os mais abomináveis pretextos, que vão do " todo mundo faz ", até o financiamento descarado das campanha eleitorais. Até quando seu Luizinho vai ficar sozinho nessa batalha submetido à chacota e escárnio dos alimentadores das raízes da corrupção na nossa sociedade?
Heródoto Barbeiro